Há uns tempos atrás viver sem cabelo não era um obstáculo!! Era um profundo vale... Quando fui à cabeleireira ia convencida a rapálo... mas corteio ficou mais curto. Agora ele continua a cair por mais tratamentos - ampolas que ponho - ele continua a cair. Estou outra vez a ganhar coragem para o ir cortar tem de ser.Penso que eu não vou "viver sem cabelo" eu "vou existir sem cabelo". Há uma diferença, uma diferença feita de atitude que não serve tão bem quanto a um sapato já usado. Tratamentos outra vez, isto caso precise - estou preparada para tudo - ainda não sei os resultados dos exames ainda não sairam, mas caso precise... Significa CARECA...Humanamente penso que não é possível habituar-me à maneira como as pessoas me vão fixar. Mas o que elas irão ver - falta de cabelo, de sobrancelhas, de pestanas - preocupa-me menos o que elas irão ver.
Sou uma pessoa a viver com um Linfoma. SIM, esta bateu com força e deixa as suas marcas "bate-lhe tu também" digo eu "com a firme intenção de deixares a tua própria marca" Todas as vezes que saio, recordo-me que há pessoas (muitas) que preferem esquecer que esta doença existe. A realidade é que a não ser que encontrem um exemplo inesquécivel do que esta doença não pode fazer, nunca mudarão a sua forma de pensar.
Deixando de escrever sobre mim estas palavras que se seguem são para os médicos, as enfremeiras, técnicos de laboratório e recepcionista que têm estado ao serviço à mais de sete meses.
Um pouco de reconhecimento faz maravilhas.
Palavras de apoio quando o equipamento intravenoso falha pela terceira vez, histórias engraçadas mesmo depois de terem picado em todos os lados à procura de uma veia... As maneiras de mostrar quanto valor têm aqueles que cuidam de nós durante os tratamentos são inumeráveis.
Pensem um pouco. O cancro para eles é uma experiência diária. De certeza que os oncologistas já perderam mais doentes do que o número de pessoas que conseguiram curar. Todos querem ajudar foi por isto que escolheram este trabalho.
Contudo pergunto-me se, muitas vezes o fardo daquilo que fazem como soldados frente à grande batalha contra o cancro não pesa muito mais que a satisfação. Em grande parte é a confiança que exprimimos (verbal e emocionalmente) que os mantém motivados para fazerem o seu melhor.
Já gritei e continuo a gritar que aqueles que cuidam de mim são o que há de melhor!!!!