Nunca posso culpar ninguém dos rasgos de racionalidade que
tenho, os que me obrigam a desviar-me de viver de olhos fechados com uma
melodia qualquer tranquila na cabeça. A culpada sou eu. Sei-o sempre, e
basta-me parar para pensar friamente nas coisas, do lado de fora. Eu sei.
Apetece-me atirar de cabeça. Fugir à frieza da minha
racionalidade. Confesso, não gosto de estar em banho-maria. Só sei estar no
gelo fino ou na chama que o queima. Não sei ser de outra forma. Tenho fome de
viver. Não sei amar a 50, passo os 120. Passo os limites de velocidade, os
limites de segurança. O problema é o depois, os outros porque lhes ofereço sem
pestanejar melhor de mim. E acabo por me
sentir vazia. Dou tudo.
Dou tudo em troca de quase nada. Quando me vejo do lado de
fora e acho que preciso de retorno percebo que não há nada a cobrar. Fui eu que
dei tudo de forma gratuita. Por querer. Sou o ombro de lamentos, o poço de
conselhos, o lenço que limpa lágrimas, o regaço de quem adormece a chorar. Sou
o que as pessoas precisam que eu seja.
"Ela é forte, aguenta, não precisa que lhe limpem as lágrimas".
"Ela é forte, não se vai chatear se não estiver lá, se lhe falhar".
"Ela é prática, não precisa que lhe prometa nada". "Ela é
independente, não sente a falta de ninguém". Parece fácil ser eu. Porra,
parece mesmo fácil. Agora baixo os braços a esta imagem criada de mim - desisto
de ser este eu.