quarta-feira, 30 de março de 2016

Esquecimento inglório.!!

O esquecimento, para o coração, é um exercício difícil de fazer. Difícil, demorado e, tantas vezes, inglório.
É fácil esquecermo-nos de comprar algo no supermercado, de regar aquela planta na varanda, de fazer um telefonema que tínhamos prometido. Mas estas tarefas não estão a cargo do coração. Não fazem parte das suas obrigações. Ele borrifa-se pra listas de supermercado e pra tudo o que é trivial. A cabeça que se preocupe com isso.
O que para o coração se torna difícil esquecer são as pessoas que, um dia, lá deixaram marcas. Marcas que teimam em não desaparecer e que se vão, lenta e sadicamente, fossilizando. E, por mais que tente, por mais que se esforce, há sempre algo que invalida esse combate... É um cheiro, é uma palavra, é uma paisagem, uma rua... Não há como escapar ao que lhe aviva a memória.
É um coração que se sente guerreiro, mas sem armas. É um coração que entra numa luta contra um adversário ausente, mas que se pressente.
É um coração cansado que não deseja o impossível, que não pede muito à vida.
É um coração que só ambiciona ter também o direito a esquecer.