segunda-feira, 10 de abril de 2023

Cenas quotidianas.


 Ando recentemente a ler um livro perturbante sobre o tempo que temos de vida e a gestão que fazemos do mesmo. 

 Gosto do silêncio, mas as pessoas teimam em iniciar uma conversa sem perceber os sinais de um bom momento de silêncio, talvez seja o receio de ficarmos só, rodeados de pessoas, quem sou eu para considerar correto ou errado algo tão natural como falar, devo ter uma paixão gigante por horas de corrida por isso mesmo, o silêncio que uma corrida invoca é incrível, posso estar num lugar silencioso andar aos gritos com o meu eu. 

Preciso de correr, preciso de silêncio…o despertador toca, é sinal de que o tempo não é meu, por norma nunca para de correr, por muito que procure encontrar uma ordem para encaixar tudo no seu tempo, toca e desligo rápido, não preciso olhar, sei que horas são, levanto-me visto os calções e a t-shirt, calço as meias e as sapatinhas adidas que parecem umas luvas. saiu levo um frontal por cima do buff, serve a primeira meia hora mais para evitar uma entorse,  esta escuro , rapidamente habituo me a escuridão,  aprendi, a saber estar no silêncio  da madrugada, no barulho da serra, dos animais que não vemos, mas eles sabem de nós a distância de quilómetros,  pelo nosso cheiro levado pelo vento, pelo nosso barulho, tem outros sentidos que esquecemos ter, penso no percurso que vou fazer,   "obriga" muitas vezes a subir e descer várias vezes a mesma encosta para acumular desnível, enquanto subo presto pouca atenção a envolvente,  os trilhos são pouco diversificados em termos de terreno, é  um lugar pouco prático, muito escorregadio,  o que obriga a uma maior aplicação de força e tento sempre evitar descer, quando isso acontece escolho bem os trilhos, quando subo procuro ouvir cada músculo principalmente o tendão de Aquiles, os gémeos, aquela sensação de ácido láctico pelos músculos, aquela falta de propulsão por fadiga ou inclinação da subida, aquele sabor estranho na boca e o desespero mental "isto não  termina" os glúteos latejam e a minha mente tem apenas um foco "vamos quase quase" no final da subida contrariar a vontade de chegar a zona plana parar ou andar, procuro contrariar a mente e o físico, obrigando o corpo a reagir, eu sei que vou numa lentidão brutal no entanto  este esforço mental em mudar de ritmo, iludi e penso vou rápido, estou bem, são frações de segundos, estou a correr num falso plano, a minha postura de corrida está melhor,  consigo uma sincronia de corrida aceitável, a mente corre, numa descida que convida a correr rápido,  acredito que quanto mais relaxada vou mais rápido corro e menos stress sinto... deixo me ir…hoje vou ter um bom dia de trabalho…