Conta a minha mãe que comecei a andar muito cedo, aos nove meses já andava, e que agarrava todas as oportunidades para sair de casa. Confrontada com a condição de poder acompanhá-la desde que não pedisse colo, habituei-me desde pequenina a caminhar, por vezes distâncias que certamente pareceriam enormes para as minhas pernas de criança.
Mesmo depois de entrar na “era
das quatro rodas”, ou seja, quando passei a ter carro e autorização para
conduzir, nunca deixei completamente de gostar de caminhar, pese embora durante
uns bons anos só o fizesse quando não tinha outra alternativa. O frenesim
diário da minha vida implicava deslocações rápidas, e a rapidez implica, em
distâncias para lá de curtas, um veículo motorizado.
Fosse em Portugal ou lá fora, as
minhas férias sempre envolveram caminhadas mais ou menos extensas na verdade,
sou daquelas pessoas que acha que andar a pé é a melhor maneira de conhecer um
lugar, e este meu gosto por caminhar tem vindo a crescer com os anos. E
aumentou de tal maneira, que algumas das viagens que tenho feito nos últimos
anos têm propositadamente incluído uma boa fatia de trilhos pedestres. Hoje em
dia, para mim, caminhar é tanto um gosto como uma necessidade, um contraponto
físico e mental a uma vida que sinto (e é, sobretudo por questões
profissionais) mais sedentária. Caminhar num ambiente natural é toda uma outra
experiência. Fico mais relaxada e automaticamente em sintonia com a
tranquilidade da natureza ao meu redor. Uma floresta é para mim como um casulo,
sinto-me protegida e confortável. Um trilho numa montanha deslumbra-me
constantemente. As irregularidades do piso marcam o compasso da caminhada. A
minha atenção está focada no momento: na atmosfera em que estou inserida; no
obstáculo que é preciso contornar; na respiração que tenho de controlar quando
a subida é mais exigente. À beira-mar, as sensações entram pela pele: a
frescura da água nos pés, a textura da areia, a brisa que vem do mar e agita o
cabelo. O passo é desigual, os pés enterram-se no chão, por vezes é preciso
fugir de uma onda mais atrevida.
Este ano as minhas férias não
tiveram nada disto e eu sinto falta…muita falta. Caminhar ajuda-me tanto a
reflectir como a tomar consciência do que existe à minha volta, e conduz-me a
revelações profundas sobre mim própria. É a melhor maneira de me lembrar que as
respostas que procuro estão frequentemente mais próximas do que pensava, e que
para encontrar o extraordinário basta – tantas vezes! – olhar para o que é
comum.
