quinta-feira, 18 de abril de 2024

“- Falhamos a vida, menino!"

  

Não sei bem porquê, talvez devido a um conjunto de fatores, mas tenho pensado muito nesta coisa de "falharmos a vida". Ou, pelo menos, de falharmos a vida que sonhamos, ou que teríamos imaginado.

Somos humanos e, talvez por isso, sonhamos e imaginamos. Sonhamos  com um curso onde sejamos felizes, sonhamos com uma carreira sólida e que nos faça sentir realizados e felizes, sonhamos com um amor bonito que nos ame e nos faça felizes, sonhamos com uma casa enorme com piscina, sonhamos com amigos sempre presentes e amorosos. Podemos sonhar com milhentas outras coisas. Podemos até planear, trabalhar e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para as conseguir. Mas parece-me - com o passar dos anos, com o crescimento e com aquilo que tem sido a minha própria vida - que falharemos sempre em certa parte. Podemos conseguir muito daquilo que sonhamos, podemos conseguir só uma pequenina parte, mas falharemos sempre algo. Acho que faz parte. Acho que é a isso que se pode chamar "dores de crescimento". Talvez seja exatamente quando percebemos que não teremos (ou dificilmente teremos) a vida que sonhamos que podemos dizer que crescemos. Se isso é falhar a vida? Diria que não. Há partes que simplesmente não dependem de nós. E então crescemos... crescemos invariavelmente e irremediavelmente quando percebemos - e sabemos - que, se calhar, não vamos alcançar a lista toda do que queríamos. Possivelmente podemos não nos sentir realizados na carreira. Podemos não conseguir encontrar um amor feliz. Podemos não ter aquela base familiar que tanto gostaríamos. Mil outras coisas. Falhamos a vida? Não sei mas diria que não. Falhamos sempre em certa parte? Acho que sim.

“- Falhamos a vida, menino!

- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: «vou ser assim, porque a beleza está em ser assim». E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Ás vezes melhor, mas sempre diferente.” - Os Maias, Eça de Queiros

Boa Noite...bons sonhos...