Não sei bem porquê, talvez devido a um conjunto de fatores,
mas tenho pensado muito nesta coisa de "falharmos a vida". Ou, pelo
menos, de falharmos a vida que sonhamos, ou que teríamos imaginado.
Somos humanos e, talvez por isso, sonhamos e imaginamos.
Sonhamos com um curso onde
sejamos felizes, sonhamos com uma carreira sólida e que nos faça sentir
realizados e felizes, sonhamos com um amor bonito que nos ame e nos faça
felizes, sonhamos com uma casa enorme com piscina, sonhamos com amigos sempre
presentes e amorosos. Podemos sonhar com milhentas outras coisas. Podemos até
planear, trabalhar e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para as
conseguir. Mas parece-me - com o passar dos anos, com o crescimento e com
aquilo que tem sido a minha própria vida - que falharemos sempre em certa
parte. Podemos conseguir muito daquilo que sonhamos, podemos conseguir só uma
pequenina parte, mas falharemos sempre algo. Acho que faz parte. Acho que é a
isso que se pode chamar "dores de crescimento". Talvez seja
exatamente quando percebemos que não teremos (ou dificilmente teremos) a vida
que sonhamos que podemos dizer que crescemos. Se isso é falhar a vida? Diria
que não. Há partes que simplesmente não dependem de nós. E então crescemos...
crescemos invariavelmente e irremediavelmente quando percebemos - e sabemos -
que, se calhar, não vamos alcançar a lista toda do que queríamos. Possivelmente
podemos não nos sentir realizados na carreira. Podemos não conseguir encontrar
um amor feliz. Podemos não ter aquela base familiar que tanto gostaríamos. Mil
outras coisas. Falhamos a vida? Não sei mas diria que não. Falhamos sempre em
certa parte? Acho que sim.
“- Falhamos a vida, menino!
- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha.
Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a
imaginação. Diz-se: «vou ser assim, porque a beleza está em ser assim». E nunca
se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Ás vezes
melhor, mas sempre diferente.” - Os Maias, Eça de Queiros
Boa Noite...bons sonhos...
