A solidão que mais pesa não é a de estar só.
É a de estar e não ser. É estar à mesa com vozes e
gargalhadas e sentir que falas uma língua que ninguém percebe. É andar pelas
rotinas do dia com passos inteiros e sentir que, por dentro, estás aos bocados.
Não tem som, nem lágrima, nem palco. É uma presença
invisível que se senta ao teu lado e te acompanha como se fosse parte do teu
corpo. Sabes que está lá porque o peito te fica mais apertado à noite. Porque o
café arrefece nas tuas mãos sem dares por isso.
Porque deixas de escolher músicas e começas só a deixá-las
tocar.
É um buraco onde nada encaixa. Nem os abraços certos, nem os
telefonemas longos, nem as mensagens que dizem “tenho saudades”. É a certeza de
que, mesmo que alguém venha, não vai saber onde te encontrar.
A solidão é esse intervalo entre o que mostras e o que és.
Esse espaço vazio onde ninguém pousa. Onde até tu tens medo de entrar.
Não te afasta das pessoas.
Afasta-te de ti.
E quando dás por isso, já te esqueceste do caminho de volta
