Há dias em que me transborda o peito. Assim, sem aviso, como
quem abre a janela e encontra o mundo mais bonito do que se lembrava. Recebo
palavras, gestos, e fico sem saber onde guardar tanta luz. Acabo por deixá-la
espalhada por mim, a ver se me ilumina os passos.
Há qualquer coisa de milagre nisto, ser mais por causa de
quem chega, ser maior porque alguém, algures, decide dizer algo bonito sem
pedir nada em troca.
De repente, sou jardim. De repente, sou casa inteira.
E é estranho, porque não espero nada. De tão nada que
espero, quando vem, é tudo. E esse tudo enche-me. Toma conta de mim, sem
licença, sem cerimónia e eu deixo, porque raras são as vezes em que o mundo se
lembra de ser gentil. E quando é, eu não fujo. Fico.
Só queria dizer isto: que os gestos pequenos me salvam, que
as palavras me amparam, que há mãos que tocam mesmo longe, que sorrir sozinha é
a minha forma de agradecer.
Sei que agradeço mal. Tropeço sempre nos obrigada, porque
parece pouco. Mas é o que tenho. É o que sou.
OBRIGADA a cada um, com tudo o que cabe em mim, e com o que
já não cabe também.
