o que não me mata não me dá força nenhuma. não me dá
medalhas nem lições brilhantes, nem essa luz bonita que as pessoas gostam de
fingir que existe no fim das dores. o que não me mata, às vezes mata um
bocadinho por dentro; vai-me tirando camada a camada, até eu já não saber se o
que visto é pele ou apenas remendo. dizem que fico mais forte, mentira. fico é
mais cansada, a arrastar medos pelas pernas como quem carrega malas cheias de
nada mas tão pesadas que quase não se respira. fico mais insegura, a olhar dez
vezes para a mesma porta antes de a abrir; fico mais pequena, não porque
queira, mas porque aquilo que me bate rouba espaço dentro de mim. não me tornei
muralha, tornei-me ferida, daquelas que não se veem, mas doem quando muda o
tempo, quando muda o olhar, quando muda alguém. se há força aqui, é a força de
continuar mesmo sem vontade, mesmo sem fé na frase feita que aparece em
canecas, quadros, publicações, como se fosse um abraço. não é. é só mais um
empurrãozinho para eu ter vergonha de sofrer e fingir que aprendi alguma coisa.
o que não me mata não me melhora, obriga-me a costurar o que rasgou, a colar o
que partiu, a inventar desculpas para continuar a levantar-me. não saio mais
forte. saio viva, e às vezes isso é apenas sobreviver, respirar no mínimo,
andar devagar, sentir a vida aos soluços. talvez a verdadeira coragem não seja
essa de crescer com a dor, mas a de admitir que ela nos quebra, que nos arranha
a alma, que nos esvazia a voz. talvez a força, se existe, esteja só no gesto
simples de continuar a tentar, sem poesia, sem heroísmo, sem frase bonita na
parede. o que não me mata não me torna mais forte; torna-me mais real, e real,
às vezes, é só seguir com o coração torto e a esperança a escorrer pelos dedos.
não há beleza nenhuma nisto de ser forte.
