“…O que sou capaz de fazer é o único limite do que posso
fazer. Porque somos seres gregários, vivemos em sociedade e a sociedade
mantem-se coesa pela força, a força das armas e a força da opinião pública. De um
lado temos a sociedade e do outro o individuo. Cada um deles é um organismo que
luta pela auto preservação. É poder contra poder. Eu permaneço sozinho,
obrigado a aceitar a sociedade, mas não sem vontade, porque a contrapartida dos
impostos é ela proteger-me, a mim, um fraco, da tirania do que é mas fraco do
que eu. Mas eu submeto-me às suas leis por obrigação. Não reconheço a sua
justiça. Não conheço a justiça, apenas o poder. E depois de ter pago ao polícia
para me proteger e, se viver num país de serviço militar obrigatório, depois de
servir no exército que guarda a minha casa e a minha terra do invasor, estarei quites com
a sociedade. Quanto ao resto eu combato o seu poder com a minha astucia. Ela faz
as leis para a sua auto preservação e se eu as quebrar ela põem-me na prisão ou
mata-me, tem o poder para o fazer e, por isso mesmo o direito .Se eu quebrar as
leis, aceito a vingança do estado , mas não a verei como castigo nem me
sentirei condenado por um crime. A sociedade tenta atrair-me a servi-la pela
honra pela riqueza e pela boa opinião do meu semelhante. Mas eu sou indiferente
á sua boa opinião , desprezo as honrarias e passo muito bem sem as riquezas….”
Servidão Humana - Somerset Maugham