
De manhã, coloco os pés no chão e percebo que o meu solo já não é composto por relva macia. Olho para o dia que se desenha à minha frente e vejo-o como uma oportunidade única. É uma dádiva da vida. Assim que os meus pés tocam a aspereza da terra, consciencializo-me que tenho mais um percurso de travessia. Começo por respirar fundo e tentar encher cada célula de luz, cada poro de vida. Lentamente os meus pés, descalços e nus, sentem a instabilidade do arame farpado, sentem os picos do arame farpado a entranharem-se na minha carne ainda tenra. Pé ante pé, sigo em frente, com a cabeça erguida, olhos postos na linha do horizonte. Em cada posição do pé, surge uma nova realidade, (o meu cérebro traiu-me), quase que perco o equilibrio, a visão fica turva, a minha memoria está fraca...E a travessia continua… enquanto os meus pés deslizam, sangrando e frágeis. O dia termina… deixo os pés repousar... Observo o meu corpo e faço o balanço: calcanhares em chagas, braços sem força, o corpo sovado pelo cansaço, o olhar sem brilho… mas consegui chegar à outra margem, sem ter perdido o equilíbrio, sem ter caído, sem ter perdido o fio que me liga à vida.
"The burning desire to live and roam free
It shines in the dark and it grows within me
You're holding my hand, but you don't understand
So where I am going, you won't be in the end"