Sei que fica mal dizer isto, mas de à uns tempos para cá não
tenho vontade de lidar com os grandes males do mundo. Deixo-os numa caixa, lá
no canto da minha mente e evito pensar neles, evito as notícias
sensacionalistas que passam horas e horas a fio esvaziando o que importa até
que a saturação se sobreponha à relevância, nem a TV ligo, só se estiver a dar
futebol, desporto de resto népia desliga-se. Preciso deste afastamento para me
manter funcional, com a bola que tenho entre os ombros lúcida. É demasiada
informação, esmifrada até ao tutano e eu sinto que não tenho como lidar com
tudo. O planeta está em pantanas e eu só estou capaz de lidar com a minha lista
de afazeres. Não me apetece, não tenho disposição, vontade, capacidade,
disponibilidade cognitiva para lidar com a guerra, a fome, as doenças, a
inflação, a má governação, e etc e tal.
Os assuntos parecem estar em todo o lado, esmiuçados,
arrastados, escrutinados por toda a gente, porque toda a gente tem uma opinião.
Não sei se é boa esta realidade de toda a gente falar do
mesmo ao mesmo tempo, explorando os assuntos até à exaustão. Porque já deixa de
ser sobre o tema e passa a ser sobre quem fala dele.
Enfim, ando assim só quero fazer o que tenho mesmo de fazer,
chegar ao fim da noite e meter o esqueleto na cama, que amanhã é outro dia
lixado, a chibata invisível está aí outra vez para me amassar o lombo.
